Cura do HIV: Conheça as Pessoas Curadas do HIV/AIDS

Casos raros de cura do HIV ocorreram em pessoas com câncer no sangue que receberam transplante de células-tronco de doadores com uma mutação genética (CCR5-delta-32). Essa mutação remove a “porta de entrada” do vírus nas células de defesa, tornando a pessoa resistente ao HIV.

Lista dos pacientes curados (ou em remissão prolongada)

  • Timothy Ray Brown (Paciente de Berlim) – primeiro caso. Transplante em 2006. Faleceu em 2020 por leucemia, sem HIV.
  • Adam Castillejo (Paciente de Londres) – segundo caso. Transplante para tratar linfoma de Hodgkin. Mais de 5 anos sem antirretrovirais.
  • Marc Franke (Paciente de Düsseldorf) – terceiro caso. Transplante em 2013, declarado curado em 2023.
  • Paciente de Nova York – primeira mulher. Transplante haplocord (sangue de cordão umbilical + células de parente) em 2017.
  • Paul Edmonds (Paciente de City of Hope) – homem de 63 anos, 31 anos com HIV, CD4 mais baixo. Transplante seguido de 17 meses sem remédios (até julho 2022).
  • Romuald (Paciente de Genebra) – primeiro caso sem mutação CCR5-delta-32. Transplante em 2018, 54 meses sem antirretrovirais (até 2023).

1. Timothy Ray Brown (Paciente de Berlim)

Timothy Ray Brown entrou para a história como a primeira pessoa curada do HIV. O caso dele, amplamente documentado por cientistas em revistas médicas e conferências, mudou a forma como os pesquisadores passaram a enxergar a possibilidade de eliminar o vírus do organismo.

Americano vivendo em Berlim, Timothy já convivia com o HIV há mais de dez anos quando recebeu um novo diagnóstico: leucemia mieloide aguda, um tipo agressivo de câncer no sangue.

Para tratar a leucemia, ele precisou passar por dois transplantes de células-tronco em 2006. As células-tronco produzidas na medula óssea, um tecido esponjoso dentro de alguns ossos são capazes de reconstruir todo o sistema sanguíneo e imunológico.

O doador escolhido para Timothy era portador de uma mutação genética rara chamada CCR5-delta-32. Pessoas com essa mutação não possuem os receptores CCR5 na superfície de suas células de defesa. E é exatamente por esse receptor que a maioria das cepas do HIV entra nas células.

Sem o receptor, o vírus simplesmente não consegue invadir as células imunológicas.

Antes do transplante, Timothy foi submetido a quimioterapia intensiva e radioterapia de corpo inteiro. O objetivo era destruir suas células doentes do sistema imunológico tanto as cancerígenas quanto as infectadas pelo HIV para que as células-tronco do doador pudessem reconstruir um novo sistema de defesa, agora resistente ao vírus.

O que aconteceu depois do transplante

Timothy interrompeu a terapia antirretroviral (TARV) logo após o primeiro transplante. O esperado seria que a carga viral voltasse a subir rapidamente. Mas isso não aconteceu.

Pesquisadores testaram exaustivamente amostras de seu sangue, intestino, cérebro e outros tecidos. Nenhum sinal de HIV com capacidade de replicação foi encontrado.

Em 2009, seu caso foi publicado na literatura científica. Em 2010, Timothy decidiu falar abertamente à imprensa. Foi nesse momento que os cientistas começaram a usar a palavra “cura” para descrever seu estado.

Ele enfrentou efeitos colaterais graves dos tratamentos contra o câncer. Mesmo assim, viveu 14 anos sem qualquer sinal do HIV em seu corpo.

Ele voltou a morar nos Estados Unidos e se tornou um embaixador da pesquisa pela cura do HIV, viajando pelo mundo para contar sua história e inspirar cientistas.

Timothy Ray Brown morreu em setembro de 2020, aos 54 anos, devido a uma recaída da leucemia não por complicações relacionadas ao HIV.

O caso de Timothy abriu uma nova frente de pesquisa. A partir dele, sempre que uma pessoa com HIV precisou de transplante de células-tronco para tratar um câncer no sangue, os cientistas passaram a procurar doadores com a mutação CCR5-delta-32.

Embora esse tipo de procedimento não seja viável para todas as pessoas com HIV (porque os transplantes de medula são agressivos e só se justificam em casos de câncer), o caso de Timothy provou que a cura do HIV é possível.

2. Adam Castillejo (Paciente de Londres)

Depois de Timothy Ray Brown, o mundo científico esperava ansiosamente por um segundo caso. Ele veio em 2019, com o britânico Adam Castillejo, conhecido como “paciente de Londres”.

Adam vivia com HIV e desenvolveu um linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer no sistema linfático. Para tratar a doença, ele recebeu um transplante de células-tronco de um doador que, assim como no primeiro caso, tinha resistência natural ao HIV graças à mutação CCR5-delta-32.

Essa mutação faz com que as células do sistema imunológico fiquem sem o receptor CCR5 a “porta de entrada” que o vírus usa para infectar os linfócitos.

O que aconteceu depois

Adam continuou tomando os remédios antirretrovirais por um período após o transplante. 16 meses depois, ele e seus médicos decidiram interromper o tratamento.

Naquela altura, todas as suas células CD4 (as principais atacadas pelo HIV) já haviam sido substituídas pelas células do doador e, portanto, todas eram resistentes ao vírus, pois não tinham os receptores CCR5.

O resultado? Mesmo sem os remédios, o vírus não voltou.

A pandemia de COVID-19 impediu que ele e Timothy Ray Brown se encontrassem pessoalmente, mas eles chegaram a conversar por telefone antes da morte de Timothy, em 2020.

Até o momento em que este caso foi relatado, Adam Castillejo já havia passado cinco anos sem tomar antirretrovirais e sem qualquer sinal de HIV no organismo. Exames minuciosos não encontraram vestígios do vírus capazes de se replicar.

3. Marc Franke (Paciente de Düsseldorf)

Depois do paciente de Berlim (Timothy Brown) e do paciente de Londres (Adam Castillejo), veio o paciente de Düsseldorf: o alemão Marc Franke.

Seu caso demorou mais para ser confirmado, mas entrou para a história como a terceira pessoa curada do HIV por meio de transplante de células-tronco.

Marc Franke vivia com HIV e, em 2013, precisou tratar uma leucemia. Para isso, recebeu um transplante de células-tronco de um doador que você já deve imaginar tinha aquela mutação genética rara (CCR5-delta-32) que torna as células do sistema imunológico resistentes ao HIV.

Diferente de Adam Castillejo (paciente de Londres), que parou os antirretrovirais 16 meses após o transplante, Marc foi mais cauteloso. Ele só interrompeu a terapia antirretroviral (TARV) em novembro de 2018 – ou seja, cinco anos depois do transplante

A notícia de que ele estava em remissão do HIV foi anunciada em 2019, ao mesmo tempo que o caso de Castillejo. Mas na época, o paciente de Düsseldorf acabou recebendo menos atenção da mídia.

Para ter certeza de que o vírus realmente havia sumido, os médicos de Marc fizeram testes extensivos por mais de quatro anos. Em fevereiro de 2023, finalmente declararam: Marc Franke estava curado do HIV.

4. Paciente de Nova York

Em fevereiro de 2022, a ciência apresentou um caso que quebrou dois padrões dos anteriores: era a primeira mulher a ser curada do HIV por transplante de células-tronco. Até então, todos os casos registrados haviam sido em homens brancos.

Essa paciente, chamada de “paciente de Nova York” (seu nome não foi revelado), vivia com HIV e também desenvolveu leucemia, precisando de um transplante.

Os casos anteriores usaram células-tronco de um único doador adulto com a mutação CCR5-delta-32. Já no caso de Nova York, foi usado um procedimento chamado transplante haplocord (uma combinação de células de cordão umbilical com células de um doador parcialmente compatível).

Por que essa escolha? Porque a paciente era mestiça (mixed-race), e a mutação CCR5-delta-32 que confere resistência ao HIV é encontrada quase exclusivamente em pessoas de ascendência europeia branca. Encontrar um doador totalmente compatível e com a mutação dupla era quase impossível.

Como funcionou o transplante

Em 2017, ela recebeu:

  • Sangue de cordão umbilical de um doador que tinha as duas cópias da mutação CCR5-delta-32 (resistente ao HIV).
  • Células de um parente (sem a mutação) para ajudar o sistema imunológico a se recuperar mais rápido e evitar rejeições.

Essa combinação deu certo. As células do cordão umbilical, ricas em células-tronco resistentes ao HIV, foram capazes de reconstruir o sistema imunológico da paciente.

Quando o caso foi divulgado em fevereiro de 2022, a paciente já havia parado de tomar os antirretrovirais há 14 meses e o HIV não havia voltado. Exames detalhados não encontraram vestígios do vírus capazes de se replicar.

5. Paul Edmonds (Paciente de City of Hope)

Em julho de 2022, a comunidade científica conheceu mais um caso de cura do HIV: Paul Edmonds, um californiano que foi tratado no City of Hope Cancer Center (daí seu apelido).

O que torna o caso de Paul especial não é apenas a cura, mas os recordes que ele carrega:

  • Idade mais avançada entre os curados até então: 63 anos no momento do transplante.
  • Tempo mais longo vivendo com HIV antes da cura: 31 anos.
  • Contagem de CD4 mais baixa já registrada em alguém que foi curado: menos de 100 células (o que indica um sistema imunológico já bastante comprometido).

Paul desenvolveu leucemia e precisou de um transplante de células-tronco. Assim como nos casos anteriores, o doador escolhido tinha a mutação dupla CCR5-delta-32, que confere resistência natural ao HIV.

O procedimento seguiu o mesmo princípio: destruir as células doentes do sistema imunológico de Paul (tanto as cancerígenas quanto as infectadas pelo HIV) e substituí-las pelas células do doador, que são imunes ao vírus.

Diferente de outros pacientes, Paul só interrompeu a terapia antirretroviral dois anos após o transplante. Os médicos quiseram ter certeza de que o novo sistema imunológico resistente já estava totalmente estabelecido.

O resultado: nenhum sinal do HIV voltou. No momento da divulgação do caso (julho de 2022), ele já estava há 17 meses sem os remédios e com carga viral indetectável. Além disso, sua leucemia também estava em remissão.

Em abril de 2023, Paul Edmonds decidiu contar sua história publicamente ao jornal USA Today. Ele quis mostrar que mesmo quem viveu décadas com HIV, teve o sistema imunológico severamente afetado e já está na terceira idade pode, sim, ser curado – desde que haja a necessidade de um transplante para tratar um câncer no sangue.

6. Romuald (Paciente de Genebra)

Em 2018, um homem franco-suíço chamado Romuald (inicialmente referido como “paciente de Genebra”) recebeu um transplante de células-tronco para tratar leucemia. Diferente dos casos anteriores, seu doador não possuía a mutação CCR5-delta-32.

Histórico
Romuald foi diagnosticado com HIV em 1990, aos 18 anos. Desde 2005, fazia terapia antirretroviral com supressão completa da carga viral.

Após o diagnóstico de leucemia, ele recebeu quimioterapia, radioterapia e o transplante.

Um mês após o transplante, suas células CD4 haviam sido totalmente substituídas pelas células do doador. Ele desenvolveu doença enxerto-contra-hospedeiro (reações das células do doador contra o próprio corpo), que foi tratada com ruxolitinib, um medicamento que, entre outros efeitos, pode reduzir os reservatórios do HIV.

Os médicos realizaram uma interrupção planejada da terapia antirretroviral. Exames ultrassensíveis não detectaram o HIV. Até a apresentação do caso na conferência IAS 2023, haviam se passado 54 meses (4 anos e meio) sem os remédios, sem rebote viral. Os níveis de DNA do HIV continuaram a diminuir mesmo sem tratamento.

Em entrevista à imprensa francófona em novembro de 2023, Romuald afirmou que o tratamento contra a leucemia (isolamento, quimioterapia, radioterapia) foi o período mais difícil de sua vida. Ele interrompeu os antirretrovirais sabendo dos riscos, tanto por si quanto para contribuir com a pesquisa.

Este caso levanta questões sobre possíveis mecanismos de remissão do HIV que não dependem da mutação CCR5-delta-32. Não se sabe ao certo qual fator – o condicionamento intenso (quimio e radioterapia), o uso de ruxolitinib, ou outros – pode ter contribuído para a ausência de rebote viral.

Pesquisadores lembram que se tratam de casos raros. Tentativas de reproduzir esses resultados em outros pacientes com câncer falharam em algumas situações. Transplantes de células-tronco são procedimentos agressivos, com riscos significativos (incluindo mortalidade), e só são indicados para pessoas que precisam tratar cânceres graves no sangue. Não é uma estratégia viável para a maioria das pessoas vivendo com HIV.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top